A cidade de São Paulo consolidou-se, em 2025, como uma das maiores referências globais na aplicação de políticas públicas voltadas à sustentabilidade, à inovação ambiental e à geração de empregos verdes. O reconhecimento veio com a divulgação do relatório internacional “De Escassez a Soluções: Bons Empregos Verdes e Mobilidade Laboral nas Cidades”, produzido pela rede C40 Cities em parceria com o Climate Migration Council e o Mayors Migration Council, apresentado durante a Semana do Clima de Nova York. Entre as 25 metrópoles avaliadas, São Paulo destacou-se como protagonista na integração entre crescimento econômico e preservação ambiental, figurando ao lado de cidades como Filadélfia, Amman e Freetown entre os exemplos de sucesso mais relevantes do planeta. O estudo apontou que, até 2040, os empregos verdes deverão representar cerca de 40% das novas vagas geradas globalmente, concentrando-se principalmente nos setores de construção civil, transporte urbano e gestão de resíduos. Segundo as projeções, São Paulo poderá alcançar até 2 milhões de postos de trabalho com perfil sustentável nesse período, o que equivaleria a quase um quinto do total de oportunidades criadas em toda a América Latina. O relatório detalha, contudo, que a expansão dessa economia verde dependerá de investimentos robustos em formação técnica, inclusão produtiva e requalificação profissional, áreas nas quais a capital paulista vem buscando avançar por meio de programas municipais como o POT (Programa Operação Trabalho), o Green Sampa e o SP Coopera, reconhecidos como referências internacionais de integração entre sustentabilidade e geração de renda.
Nos últimos anos, a metrópole implementou um conjunto de medidas que redefiniram sua estratégia de desenvolvimento urbano. O chamado Pacote Verde, pilar dessa política municipal, reúne ações de plantio de milhões de árvores, criação de florestas urbanas, substituição progressiva da frota de ônibus movida a diesel por veículos elétricos e a biometano, além da modernização do sistema de coleta e reciclagem de resíduos com caminhões de baixo impacto ambiental. Dados da administração municipal indicam que mais de 50% do território paulistano já possui cobertura vegetal, consolidando a cidade como uma das áreas urbanas com maior densidade verde entre as grandes metrópoles globais. O relatório da C40 atribui parte desse avanço ao modelo de governança ambiental aplicado pela Prefeitura, que combina investimentos públicos, parcerias com o setor privado e iniciativas comunitárias voltadas à economia circular. Essa abordagem, segundo o documento, contribuiu diretamente para a redução da taxa de desemprego local, hoje em torno de 5,4%, a menor da série histórica, e para o aumento do saldo médio salarial, reflexo do crescimento dos postos de trabalho ligados a tecnologias sustentáveis e à gestão de recursos naturais.
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção dos avaliadores internacionais foi a capacidade de São Paulo de alinhar suas políticas ambientais à inclusão social. O Programa Operação Trabalho, lançado originalmente como instrumento de combate à vulnerabilidade socioeconômica, tornou-se exemplo mundial ao transformar terrenos públicos e áreas subutilizadas em espaços de capacitação profissional e experimentação agrícola sustentável. Projetos como o POT Agricultura e o Mães Guardiãs vêm empregando milhares de pessoas em atividades ligadas à alimentação escolar, ao manejo urbano e à agricultura de base ecológica, promovendo autonomia financeira em comunidades de baixa renda e fortalecendo a conscientização ambiental. Estima-se que mais de 13 mil paulistanos em situação de vulnerabilidade participem de frentes de trabalho e capacitação do POT, o que fez do programa um modelo citado no relatório da C40 como paradigma de integração entre políticas sociais e a chamada transição justa — a estratégia de converter velhas cadeias produtivas poluentes em atividades de baixo carbono sem excluir trabalhadores.
Outro ponto sublinhado pelo relatório é a relevância do Green Sampa, iniciativa municipal dedicada a fomentar startups e negócios ligados à inovação verde. O programa funciona como um hub tecnológico, conectando empreendedores, universidades e investidores especializados em soluções de energia limpa, gestão hídrica e economia circular. A plataforma já atraiu dezenas de projetos de impacto ambiental positivo, muitos dos quais receberam financiamento internacional. Esses esforços reforçam a imagem de São Paulo como um polo emergente de inovação climática, o que, segundo o estudo, amplia a capacidade da cidade de atrair investimento estrangeiro e diversificar sua base produtiva. Além disso, a Cooperação Setorial Estratégica São Paulo–Copenhague, firmada com a capital dinamarquesa, tem promovido intercâmbio técnico em temas como eficiência energética, manejo de resíduos e adaptação climática, fortalecendo a diplomacia ambiental paulistana e posicionando a cidade no centro do diálogo global sobre sustentabilidade urbana.
O impacto econômico projetado pelos analistas é considerável. Se conseguir suprir a demanda estimada por trabalhadores qualificados no setor verde, uma escassez potencial de até 1,3 milhão de profissionais, São Paulo poderá adicionar cerca de 33 bilhões de dólares à sua economia até 2040, o equivalente a 5% do Produto Interno Bruto municipal. Esses números revelam não apenas o potencial transformador da transição ecológica, mas também a urgência em expandir políticas de formação técnica e inclusão produtiva. O desafio está em estruturar uma política educacional adaptada a essas novas demandas, capaz de preparar eletricistas, engenheiros, técnicos ambientais, gestores de resíduos e operadores de transporte para um mercado que muda rapidamente com a eletrificação e digitalização de setores inteiros.
A consolidação de São Paulo como vitrine de sustentabilidade também tem reflexos diretos em sua governança metropolitana. A articulação entre secretarias e autarquias municipais tornou-se mais orgânica, e políticas antes tratadas de forma isolada, como mobilidade, saúde e planejamento urbano, passaram a ser integradas no conceito de “cidade sustentável”, com metas de redução de emissões e estímulo à economia verde. A cooperação com universidades estaduais e centros de pesquisa, como a USP e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas, garantiu o suporte técnico necessário para orientar planos de ação de médio e longo prazo. Esse ecossistema de políticas públicas, inovação empresarial e engajamento comunitário consolidou-se como uma das razões principais para o destaque internacional obtido pela metrópole no estudo da C40.
O reconhecimento de São Paulo não é apenas simbólico, mas político e econômico. Ao demonstrar que o desenvolvimento urbano pode caminhar de forma harmônica com a preservação ambiental, a cidade projeta uma imagem de modernidade e resiliência que fortalece sua posição como centro de investimentos sustentáveis na América Latina. O relatório destaca que o compromisso com o futuro verde não é apenas um imperativo ético ou ambiental, mas também uma estratégia de competitividade em escala global. Para uma metrópole que enfrenta desafios históricos na gestão do transporte, na mitigação de desigualdades e no combate às enchentes, o avanço da agenda climática representa uma oportunidade singular de reinventar-se a partir de seus próprios recursos humanos e territoriais. Em um momento de transição mundial para economias de baixo carbono, a experiência paulistana serve como evidência de que políticas bem estruturadas, aliadas à força da sociedade civil e à inovação tecnológica, podem transformar desafios ambientais em motores de crescimento econômico e justiça social.
Marcelo Henrique de Carvalho

