Marcelo Henrique de Carvalho
A violência urbana e as operações policiais em São Paulo se consolidaram, especialmente ao longo de 2025, como um dos principais temas de discussão pública no estado. Nos últimos meses, a capital paulista e cidades da Região Metropolitana testemunharam uma intensificação no enfrentamento entre forças policiais, especialmente a Polícia Militar, com destacada atuação da ROTA e do Batalhão de Choque, e quadrilhas de tráfico, crime organizado, além de grupos dedicados a delitos como roubos, furtos e adulteração de produtos de consumo. Em meio a essa conjuntura, os índices de letalidade policial permaneceram altos, com episódios que mobilizaram tanto esferas políticas quanto movimentos sociais que monitoram abusos e excessos.
O estado enfrenta um cenário complexo em que o aumento da violência se relaciona diretamente à atuação policial. Em diversas ocasiões, operações policiais têm causado múltiplas mortes em poucos dias, como em outubro de 2025, quando oito supostos criminosos foram mortos em 24 horas nas cidades de São Paulo, Campinas e Jundiaí. Esse tipo de ocorrência se tornou frequente e, em muitos casos, reforça percepções públicas divididas quanto aos métodos empregados pelas forças de segurança. Há quem veja nesse modo de atuação uma resposta proporcional à escalada do crime, enquanto outros denunciam práticas abusivas e seletivas, especialmente contra jovens negros e periféricos.
Desde 2023, com a chegada do governador Tarcísio de Freitas e do secretário de Segurança Pública Guilherme Derrite, ex-tenente da ROTA e figura de perfil mais bélico, o estado assistiu a um salto significativo nas mortes causadas por intervenções policiais. Segundo levantamentos recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, os casos de letalidade policial cresceram 61% entre 2023 e 2024, mesmo em um momento em que a média nacional apresentava tendência de queda. Uma análise dos dados mais recentes revela que, no primeiro semestre de 2025, 26% dos homicídios dolosos em São Paulo foram cometidos por policiais, índice considerado alarmante por especialistas, já que um cenário ideal para democracias consolidadas apontaria para percentuais inferiores a 10%.
O perfil das vítimas desse tipo de abordagem policial permanece bastante demarcado: a maioria é composta por homens jovens e negros, com cerca de 58% das vítimas entre 19 e 35 anos, e mais de 50% negros. Os bairros periféricos concentram as ocorrências, em regiões onde a presença do Estado é mais sentida pela repressão do que por políticas sociais. Casos emblemáticos reforçam essa tendência, como o de Victoria Manoelly dos Santos, adolescente morta em uma abordagem policial na zona leste, ou o de Nicolas Alexandre, jovem executado durante patrulhamento na comunidade de Paraisópolis, zona sul.
Apesar do avanço tecnológico, como o uso de câmeras corporais durante as operações policiais, evidenciou-se recentemente que alterações nas regras de funcionamento, como cadastrar a gravação manualmente, em vez de ser contínua, fragilizaram a transparência das ações e tornaram mais difíceis as apurações posteriores. As denúncias de abusos e execuções aumentaram, sobretudo após megaoperações em locais como Baixada Santista, que resultaram em dezenas de mortes e provocaram reações críticas tanto da sociedade civil quanto de organismos internacionais.
Ao longo do segundo semestre de 2025, a capital e as cidades do entorno passaram por operações de grande porte articuladas pela Polícia Civil. Uma dessas ações, batizada de Linha Cruzada e coordenada pela Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes de Guarulhos, mobilizou mais de 200 policiais civis e cerca de 100 viaturas para desarticular quadrilhas ligadas ao tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Foram cumpridos dezenas de mandados de prisão e busca em bairros da zona sul, zona norte e periferia da capital, além de municípios da Grande São Paulo. Nessas operações, armas, grandes quantidades de drogas, celulares e dinheiro em espécie foram apreendidos.
Além do combate ao tráfico, o foco policial se manteve sobre quadrilhas especializadas em outros tipos de crimes, como furto de veículos e invasão de contas bancárias, adulteração de bebidas alcoólicas e abuso sexual de menores. Em outubro, operações contra redes de adulteração de bebidas resultaram na prisão de suspeitos em diversas cidades do estado, em resposta à escalada de mortes por intoxicação decorrente de consumo de álcool adulterado com metanol.
Simultaneamente, as polícias Civil e Militar conduziram operações estratégicas para desarticular células do crime organizado, variando desde ações ostensivas em comunidades vulneráveis até investigação e asfixia financeira de esquemas de lavagem de dinheiro. O método mais frequente envolve inteligência policial, cruzamento de dados, reconhecimento de padrões de movimentação de valores e identificação de rotas de tráfico e agentes de ligação entre diferentes estados.
No entanto, apesar da ostensividade das operações, o número de prisões caiu, enquanto aumentou o total de mortes durante confrontos armados, o que revela um modelo de enfrentamento que privilegia o uso da força letal. Diferentes organismos de pesquisa, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alertam que o Estado paulista adotou, desde 2023, retrocessos em políticas de mitigação da letalidade, a exemplo da diminuição da fiscalização interna e do enfraquecimento dos protocolos para investigações independentes das mortes cometidas por policiais em serviço.
Os debates sobre as operações policiais em São Paulo extrapolam os limites da segurança pública e refletem sobre a própria democracia: a resposta institucional ao crescimento do crime organizado é atravessada tanto por medidas repressivas quanto por escolhas políticas que influenciam o cotidiano das periferias. As ações de repressão têm sido justificadas por argumentos de combate ao tráfico e de proteção da sociedade contra atividades criminosas altamente estruturadas, mas geram impacto direto sobre a vida de moradores de regiões historicamente marginalizadas.
A discussão pública sobre violência é também alimentada pelos conflitos constantes entre agentes da segurança e organizações sociais, com episódios em que familiares de vítimas e ativistas denunciam práticas como execuções sumárias, uso desproporcional da força e invasão de residências durante operações. Por outro lado, policiais alegam que enfrentam riscos diários e que a escalada da violência ocorre paralelamente ao avanço do crime organizado, cuja capacidade de recrutamento e armamento não para de crescer.
O panorama atual indica um ciclo de violência difícil de romper. O enfrentamento armado deixa marcas profundas tanto em familiares das vítimas quanto na corporação, que também perde membros em ações violentas. O saldo de mortes entre agentes da segurança chegou a 129 em todo o país até agosto de 2025, com São Paulo respondendo por um número significativo.
Tendo o estado como palco de grandes operações e confrontos de alto impacto, cada novo episódio realimenta a controvérsia sobre os caminhos possíveis para enfrentar o crime sem multiplicar vítimas inocentes ou reforçar dinâmicas de exclusão e racismo estrutural. Em meio ao protagonismo do policiamento ostensivo, o desafio da segurança pública paulista segue sendo conciliar o combate eficaz à criminalidade organizada com o respeito aos direitos humanos, à lei e à integridade física da população. Essa tensão permanece no centro do cenário urbano do estado mais populoso do Brasil, marcando não apenas estatísticas, mas também vidas e comunidades inteiras.

