A ferida do suicídio não cicatriza totalmente. É assim que a escritora Andressa Arce, autora do livro No Dia em que Não Fui, uma ficção que retrata o suicídio de uma jovem e as sequelas deixadas, fala sobre a experiência. Isso porque ela passou pela mesma dor da personagem principal da sua obra, Alice, que presencia a meia-irmã Liana tirar a própria vida.

“Eu realmente acredito que o luto se torna um patrimônio pessoal, íntimo da gente. Para mim é como se fosse uma ferida que não se cicatriza totalmente. Então, de vez em quando vai doer, mas com o passar do tempo e com a elaboração, é possível carregar essa dor com mais estrutura.
Assim como sua personagem Alice, a autora do livro No Dia em que Não Fui conta que o luto pela morte por suicídio é diferente de outros tipos de perda.
“Eu tenho a impressão de que o luto é diferente, porque a memória daquele que se foi por ter tirado a própria vida, pelo menos no meu ambiente familiar, não parece ser retomada com a mesma facilidade que se retoma a memória de outros entes familiares que se foram em razão de causas naturais.”
A psicóloga Luciana Rocha também conhece essa realidade de perto. Após perder o marido, Marden, que tirou a própria vida, ela decidiu estudar suicidologia e lançou o livro Nem Covarde Nem Herói. Ela explica que, para aprender a conviver com o luto pelo suicídio, é necessário falar a respeito.
“Dor compartilhada, dor diminuída. A gente precisa sim falar, né? É sobre perder alguém, né? Por suicídio ou qualquer tipo de perda, né? Então com quem que você vai falar? Você vai falar com quem que você se sente acolhido, né? Você tem que falar com quem que você percebe que vai te ajudar de alguma forma.”
Para Luciana, a família não deve se culpar, porque não existem culpados e o suicídio é multifatorial.
“O suicídio é uma consequência, né? De um adoecimento mental ou até mais de um, juntamente com outros fatores, né? Porque ele é multifatorial. Então assim, ele é uma consequência, né? De uma doença, assim como um infarto, uma diabetes.”
Entre 2023 e 2024, o Brasil registrou mais de 31 mil mortes por suicídio. Segundo o Ministério da Saúde, foram mais de 17 mil casos em 2023 e mais de 14 mil em 2024. É importante lembrar que existe ajuda gratuita em todo o país.
Quem sofre com algum transtorno mental pode procurar um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), pronto atendimento ou uma unidade básica de saúde e pedir para iniciar o tratamento.

