Por Marcelo Henrique de Carvalho
O radicalismo político que se disseminou pelo Brasil nos últimos anos alcançou níveis de histeria poucas vezes observados na história recente do país, lançando esquerda e direita em frenesi de antagonismo social, onde qualquer gesto se reveste de simbolismo extremo e, não raro, violência gratuita. O episódio do “Porquinho da Paulista”, alvejado por golpes de garfo na efervescente Avenida Paulista após as manifestações de 7 de setembro, materializa o câncer que se alastra pelo tecido social brasileiro, transformando divergências legítimas em motivações banais para o confronto físico.
Polarização: Brasil em Confronto
A polarização política não é exclusividade nacional, mas, no Brasil, assumiu contornos dramáticos. O fosso entre direita e esquerda, nutrido por crises econômicas, sucessivos escândalos de corrupção, ondas de desinformação e o crescente descrédito nas instituições, fez da vida pública um palco de embates incessantes. Pesquisas recentes indicam que 32% dos brasileiros já desistiram até mesmo do diálogo com quem pensa diferente, superando médias globais e colocando o Brasil entre os francamente intolerantes no concerto das nações.
Historicamente, crises como o impeachment de Dilma Rousseff, a Operação Lava-Jato e a ascensão de figuras de perfil antagônico: Bolsonaro de um lado, um Lula reinventado do outro — plasmaram a sociedade em dois polos quase inconciliáveis. Nas redes sociais, o embate é cotidiano; nas famílias, causa cisões irreparáveis; nas ruas, já se converte em confrontos reais.
O Dia 7 de Setembro na Paulista: Termômetro do Extremismo
No emblemático feriado de 7 de setembro de 2025, a Avenida Paulista se transformou em arena de gladiadores da política. De um lado, cerca de 42 mil militantes de direita, pedindo anistia para Jair Bolsonaro (então em prisão domiciliar) e protestando, aos brados, contra o ministro Alexandre de Moraes, alçado ao papel de inimigo-mor da “pátria” pelos bolsonaristas. Do outro, cerca de 9 mil militantes à esquerda ocuparam o centro da cidade em manifestação oposta, expressando seu repúdio à extrema-direita. A matemática inexorável das multidões evidencia que a intolerância ganhou corpo e voz, sustentada por lideranças que fomentam o divisionismo.
O discurso praticado nas manifestações é frequentemente inflamado. Discursos de impeachment contra ministros do STF, agressivos chamados à anistia de condenados por atentados antidemocráticos e clamores simbólicos por intervenção internacional marcam o léxico das ruas, perfumadas apenas por gases de hostilidade explícita. O ambiente era de tensão, onde o menor átomo de provocação prometia combustão espontânea.
O Caso Porquinho da Paulista: O “Garfo” Como Símbolo
É neste caldo de ressentimento que se inscreve o ataque ao artista Jonathan Oliveira, o “Porquinho da Paulista”. Durante a apresentação para o público, cuja essência é o humor, a música, a ludicidade, um homem, ostentando uma camisa da Seleção Brasileira (símbolo apropriado pela direita bolsonarista), trespassou o gradil de proteção para desferir golpes de garfo contra a fantasia do artista. Quatro vezes tentou perfurá-lo, alheio ao fato de que havia, junto ao porquinho, uma criança.
A cena, registrada por celulares e transmitida ao vivo por um influenciador, viralizou na velocidade com que a indignação virtual costuma se espalhar. O agressor, acuado pela multidão, foi vaiado e retirado pela polícia, que teve de intervir. Jonathan, com serenidade admirável, afirmou: “Não estamos falando de política, estamos falando de pessoa”. Contudo, o olhar dos presentes — e da nação — enxergou o episódio pelo viés de sua era: não mais uma manifestação isolada de descontrole, mas o sintoma de uma sociedade à beira do colapso comunicacional.
O Radicalismo Como Nova Norma Social
O gesto brutal contra o artista de rua, por mais grotesco que seja, não se afigura como exceção. A radicalização é apontada por estudiosos e parlamentares como o novo “modus vivendi” de boa parte da sociedade. O senador Confúcio Moura alertou em plenário para os riscos do extremismo e defendeu um retorno ao equilíbrio e à mediação na vida pública, evocando nomes de presidentes conciliadores do passado — figuras cada vez mais raras na paisagem política nacional.
A adesão às ideias extremas prospera num terreno de desencanto democrático. Cresce não apenas pela ação dos radicais, mas, sobretudo, pela omissão dos moderados e pelo desamparo das instituições que deveriam servir de amortecedor social.
O Futuro da Disputa Política
Se o episódio do Porquinho da Paulista serve de metáfora, é porque revela o quanto a batalha passou a ser travada não apenas nos palanques, mas também nos gestos mais banais do cotidiano. O garfo do agressor, elevado à condição de arma, aponta para um tempo em que a alteridade é vista como ameaça e a empatia é aviltada pelos dogmas da tribo.
Resta ao Brasil, se não deseja ser engolido pelo próprio ressentimento, revalorizar o espaço público e a dignidade do debate. O apelo não é à neutralidade anódina, mas à civilidade e à possibilidade do encontro, por mais improvável que pareça. O porquinho, mesmo ferido na fantasia, seguiu sua música. E talvez resida aí, na resistência à brutalidade, o fôlego que falta ao país para repensar seus próprios extremos.
O radicalismo que se observa nas ruas e nas redes, personificado no caso do Porquinho da Paulista, é sintoma e alerta. Insistir nos garfos, literais ou figurativos, é recusar o futuro, com as consequências mais graves reservadas a todos, sem distinção de lado ou ideologia. O Brasil, mais do que nunca, precisa de pontes, não de barricadas.

